segunda-feira, 6 de julho de 2015

Crédito de  Isadora Manerich

Sarau Afro-Açoriano, em suas próprias palavras, patrimônio tanto de Bombinhas quanto Porto Belo, por fim um grupo do litoral norte catarinense.

Logo depois da Enseada Encantada, tem uma rua famosa por ter na esquina uma loja de utensílios de cobre. Uns 200 metros rua adentro tem uma casa tranquila, branca, calma, de fundos, encostada no morro. Na sala, quase vazia, de janelas grandes, a música acontece toda sexta-feira de manhã. Na realidade aquelas paredes são acostumadas a vibração de instrumento e vocais. É a residência do casal Cezinha e Adri, músicos, e dois dos seis integrantes, do Sarau Afro-Açoriano que ensaiam as sextas-feiras ali.

O grupo com um ano e meio de estrada, apareceu no último mês em diversos meios de comunicação, pois foram os campeões do 2º Concurso de Música Ambiental de Itajaí. Trouxeram para casa uma experiência diferenciada, um belo troféu e portas abertas pelo estado afora. E a música “Fui tarrafear” ganhou o conhecimento e reconhecimento público.

Sabe aquela canção do Erasmo e Roberto Carlos, “Sentado a beira do caminho”? Pois é, até sem querer, por conveniência ou simplesmente por deixar a vida levar, essa expressão acaba por se tornar verdadeira para muitos. Outros, mesmo que pareça vagarosamente, trilham seu caminho a duras penas. Nada acontece da noite para o dia, tudo sempre tem uma história. Trabalho um dia dá resultado, nem sempre no tempo em que a gente espera, mas um dia acontece.

O grupo Sarau Afro-Açoriano é uma concepção antiga que permeava a cabeça de seu idealizador André Miranda. Um dia, há aproximadamente quatro anos, resolveu montar o grupo, convidou um povo que não conseguiu se reunir. Acabou convidando outros músicos e a primeira apresentação foi na inauguração do Mercado Público de Itapema, em 2012. Daquela formação inicial apenas Eri Cavalcante integra o atual. Desta primeira apresentação, até a implementação de uma banda verdadeiramente dita, foi mais um ano. 
Até que em 2014, o atual grupo se juntou, curiosamente o mesmo proposto há quatro anos quando do boneco do projeto Sarau Afro-Açoriano.


São seis integrantes, sendo dois casais, além de Cezinha e Adri Benvenutti, tem o Eri Cavalcante e Cilene Borba, e mais Carlinhos Ribeiro e o criador André Miranda. O grupo é O grupo é coeso, mais que isso unificado, amigos de muitos anos. Cezinha e André nasceram em Porto Belo, o primeiro filho das famílias Serpa e Silva da Enseada Encantada, o segundo misturou os Serpa do bairro de Zimbros em Bombinhas, com os

Foto do facebook do sarau Afro-Açoriano.

Miranda de Porto Belo. Carlinhos nasceu em Santos, filho de mãe portobelense e pai baiano, mas se mudou para Porto Belo com cinco anos. Os três estudaram juntos e começaram a tocar juntos.

Eri e Cilene são casados há 10 anos, ele é morador da Praia de Fora (Quatro ilhas), bairro de Bombinhas, desde os quatro anos, nasceu no nordeste, filho de pais nordestinos. Se descobriu percussionista com o Carlinhos Ribeiro, e a esposa, mais que companheira uma parceira, embarcou na viagem junto. O casal reside no bairro de Bombas. Ela nasceu em Blumenau, mas é moradora de Bombinhas desde os 14 anos. Atualmente ele faz o Conservatório de Música de Itajaí. Cezinha, Carlinhos e André já concluíram. Cilene ainda não despertou para essa procura profissional, mas é uma musicista natural, sem falar da alma cênica. É dona de uma expressão corporal, de uma presença de palco que impressiona. Consegue passar tudo com os olhos. Tudo!

A mais jovem, tanto em idade quanto em moradia na península de Porto Belo, é Adriana Benvenutti, a esposa do Cezinha. Adri é peixeira da gema, sua mãe é dos Borba de Itajaí e seu pai italiano, daí o Benvenutti. Além de uma voz belíssima é uma mulher muito bonita, marcante. Não é atoa que conquistou o coração do Cezinha e acaba de se tornar mais uma Silva. Está concluindo o Conservatório de Música de Itajaí.

André, Cezinha e Carlinhos são filhos da cultura popular, de tocadores e cantadores. A ideia do Sarau partiu da junção dos folguedos de boi de mamão, terno de reis, cantigas de roda, cantorias de engenhos e roças. André é neto do Seu Amaro e Dona Didi, eram da tradição do terno de reis, os pais também cantavam e na realidade toda a família participava do folguedo. Quando os avós faleceram a cantoria parou, mas o menino André já era homem formado, e músico. A cantoria do reis e do boi de pau é uma característica muito forte no grupo. “Essa história está muito implícita na minha música, nos meus projetos, as vozes, a divisão de voz. Sempre ouvi minha vó fazer a quinta da voz sem saber o que era”, conta André.

O grupo entende que seu encontro juntou pessoas que contam e cantam a história local, que fazem cultura popular, mais que isso, a cultura da península de Porto Belo. E trata-se de uma mistura que deu muito certo: o indígena com os colonizadores açorianos e ericeirences, aliados a influência dos escravos. Por isso o nome Sarau Afro-Açoriano. “O Sarau é um resgate histórico, do avô do André, a coisa da história da cultura popular. E o Avô do Cezinha e o meu também eram da cultura popular. A gente sempre falava em fazer uma coisa mais regional. Mas como cada um tem seus projetos individuais, ficava para um outro dia”, fala Carlinhos. E o dia aconteceu.

O conjunto faz uma música leve, consegue reproduzir no palco a simplicidade do fazer de casa em casa. Diferente das superproduções das bandas pops. Todos são pessoas acessíveis, descomplicadas, com sorriso no rosto, humildes, pessoas que chamamos de “gente do bem”. Eles fazem de conta que o palco é o quintal das casas visitadas, tanto que em 2014, em três momentos tiveram a oportunidade de demonstrar o diferencial do grupo, mais que na música, também nas atitudes. Na apresentação do Sarau de Quintal (acontecimento cultural de Porto Belo), saíram direto para a cantoria de casa em casa. E nos shows na Polifonia do Sal e no Som da Maré, sem obrigação, tudo intuitivo, desceram do palco com o boi e o bicharedo e finalizaram o espetáculo no meio do povo. “O palco é legal porque a sonorização é perfeita, tudo bonito e equalizado, mas tentamos linkar o palco com o estar de casa em casa”, expressa Carlinhos.
 
Crédito de Marcinha Ferreira

Aguardam com ansiedade o 22º Açor, que Bombinhas sedia de 2 a 4 de outubro.“É perfeito por ser uma festa da cultura açoriana. É a efervescência da cultura açoriana, litorânea, é bom fortificar a herança cultural”, comenta Cezinha. A preparação vai além das músicas para o espetáculo, querem utilizar o talento teatral da Cilene e fazer uma produção especialmente para o festejo. “Trabalhamos muito as misturas africanas, como o batuque, a indígena e a herança açoriana. A gente tenta estar sempre em contato com os antigos que ainda estão vivos, e eles em sua unidade jogam pra nós e a gente se abastece”, conta André.

Também o intercâmbio cultural e as vivências proporcionadas por um encontro, totalmente, pautado na cultura de base açoriana é destacado pelo grupo como um momento especial de aprendizado. “Tem muita coisa que eu não sei, eu quero ver coisas novas, assistir o que os outros grupos estão fazendo”, fala Adri.

Quanto a música campeã do festival de Itajaí, integra o repertório do grupo desde o início. Dois dias antes do concurso se inscreveram porque viram na canção a possibilidade de participar. Trata-se de uma composição de André Miranda com arranjo realizado especialmente para a competição, pelo Cezinha. É uma música de protesto, mas que fala muito mais de amorosidade e respeito a natureza do que palavras de ordem ou de incitação a luta. Foi composta pensando na degradação da Península de Porto Belo, para questionar, instigar a reflexão quanto a estrada nova, chamada de segundo acesso, entre Bombinhas e Porto Belo. André e Cezinha são atletas, praticam a corrida como atividade física, e é comum treinarem naquela estrada. André explica que a intenção é questionar a sua real necessidade, levantar prós e contras e faz um correlativo com a história do capitalismo no mundo, o consumismo. “A gente vive como máquinas para sobreviver. A música fala de um pescador que quando o mundo estava sendo vendido, ele foi tarrafear”, ressalta o compositor.

Eles destacam que haviam muitas canções de protesto no festival, algumas compostas especialmente para o concurso, muitas de incentivo a luta e ganhou, justamente, a que fala de amor a natureza, a vida. Um protesto que segue o caminho do coração,

Fazem questão de ressaltar o trabalho de gestão cultural realizado tanto pela Fundação de Cultura de Bombinhas, quanto de Porto Belo, por suas presidentes, Nívea Maria da Silva Bücker e Fabiana Kretzer respectivamente. “Não tínhamos espaço para apresentações em nossa própria terra, e agora temos. Hoje a gente pode chegar em ambas Fundações e mostrar nosso trabalho”, afirma Cezinha. André, ainda, declara que é fundamental este apoio. “As pessoas não percebem mas esta visão da Nívea e da Fabinha, de fomento e investimento é muito importante. Se não tiver apoio do poder público tudo fica mais difícil”, comenta o criador do Sarau.

Este grupo fala da cultura bombinense, que é muito similar a portobelense, o que é natural, já que são cidades que um dia foram uma só. A característica musical do Sarau Afro-Açoriano tem uma formação familiar, e a música feita pela comunidade tradicional bombinense é de estrutura familiar.

Neste segundo semestre o DVD que está no forno, começa a ganhar os espaços do estúdio e a ideia é lançá-lo no início de 2016. Enquanto isto, os espetáculos continuam, e os meninos cantadores seguem seu caminho, e se você não conhece, procure assistir, pois vale a pena cada segundo de plateia.