Arquivo Pessoal: Marcos Aurino Pinheiro
A pesca da tainha é uma tradição de origem indígena que ganhou a influência dos primeiros açorianos que aportaram na região, evidenciando assim que a pesca e as canoas de um pau já existiam quando os colonizadores açorianos chegaram. Deles vieram as melhorias realizadas no principal instrumento para a pesca artesanal que é a canoa, já que uma das muitas habilidades do povo açoriano era o manuseio com ferramentas para a construção naval.

Nessa atividade ocorre uma grande aproximação entre familiares, amigos e comunidade, que realizam uma vigília diária na praia, que muitas vezes inicia na madrugada, segue durante o dia e até a noite. A observação ininterrupta do movimento dos cardumes é fundamental para que se proceda o cerco. Após a captura, o resultado é dividido entre as famílias dos pescadores e ajudantes, moradores ou visitantes, a passeio pela praia, que decidem ajudar na “puxada de rede”.

Referências Históricas
Arquivo Pessoal: Marcos Aurino Pinheiro
Muitas são as evidências de que os índios carijós pertencentes à nação tupi-guarani foram os primeiros a povoarem estas terras. Os sambaquis (sítios arqueológicos) descobertos em algumas praias e terrenos em Bombinhas, como nos bairros de Zimbros, Canto Grande e Bombas, não deixam dúvidas de que esses foram os primeiros habitantes da península.

O relato feito em 1577 pelo aventureiro alemão Hans Staden (1525-1579), que esteve duas vezes no Brasil, provavelmente, foi o primeiro registro histórico sobre a pesca da tainha feita pelos indígenas no litoral paulista:
Neste tempo (agosto) procuram (os índios) uma espécie de peixe que emigram do mar para as correntes de água doce, para ai desovar. Esses peixes se chamam, em sua língua, “piratis”, e em espanhol “lisas” (tainhas). Pescam grande número de peixes com pequenas redes. O fio com que as esmalham, obtêm-no de folhas longas e pontudas, que chamam tucum. Quando querem pescar com estas redes, juntam-se alguns deles e colocam-se em circulo na água rasa, de modo que a cada um cabe um determinado pedaço da rede. Vão, desta maneira uns poucos no centro da roda e batem na água. Se algum peixe quer fugir para o fundo, fica preso à rede. Aquele que pega muito peixe reparte com os outros que pescam pouco. Também os atiram com flechas. Têm a vista aguçada. Quando algures vem um peixe à tona, atiram-no, e poucas setas falham. Recolhem grande porção de peixes, torram-nos sobre o fogo, esmagam-nos, fazendo deles farinha, a que chamam de piracuí, que secam bem a fim de que se conserve por muito tempo. Levam-na para casa e comem-na juntamente com a de mandioca. (STADEN, Hans,1900, pg. 42).
A partir desse relato, é possível notar que foram os indígenas que ensinaram os portugueses a pesar a tainha e também a como comê-la, com a farinha de mandioca, o chamado pirão com peixe. É importante termos em mente que ambas as atividades, pesca da tainha e fabricação da farinha derivada da mandioca, são de origens indígenas e que foram adaptadas pelo açoriano, e tornaram essa cultura como há conhecemos hoje. O historiador Sergio Luiz Ferreira  destaca a industrialização do processo da farinha de mandioca em Santa Catarina que, devido a colonização açoriana, resultou em uma farinha mais fina bem próxima a textura da farinha de trigo.

Fontes escritas que fazem referência a pesca da tainha são quase inexistentes na região, mas isso não impede a pesquisa feita pela comunidade por meio da história oral, pois, os pescadores e suas famílias não herdaram somente as canoas, muitas construídas há mais de cem anos, mas todo o legado de uma tradição de seus antepassados.

Uma das grandes histórias sobre a pesca da tainha foi o lanço (cerco/lance pesca com rede) ocorrido no ano de 1949 em Bombinhas, chamado “ano da pesca rica”, onde ao raiar do dia, na praia de Bombinhas o vigia se surpreendeu com uma massa escura no mar, que se aproximava lentamente, em seguida deu o sinal para os camaradas na praia e esses, no maior saragaço (correria, confusão), colocaram a canoa no mar. O vigia, percebendo que era muito peixe, sinalizou para que colocassem outra canoa no mar, que proporcionou um cerco maior.

Mesmo com ajuda de toda a comunidade na puxada da rede, que demorou horas, muitas se perderam do cerco, mais de 28 mil tainhas foram capturadas somente naquela praia. O relato continua, o Mestre Naro  conta que na praia da Sepultura, onde situa o rancho de pesca de sua família, neste mesmo dia foram capturadas cerca de 10 mil tainhas, sendo que metade foram soltas pois já havia anoitecido. Muitos pescadores que participaram desta pesca rica ou tainhada como ficou conhecida, hoje estão na casa dos 80 anos, alguns beirando os 90, por esta ocasião eram adolescentes, e dão conta de que foram pegas mais de 1 milhão de peixes em todo o território, hoje conhecido, bombinense.

Essas e outras histórias são contadas pelas pessoas mais idosas da comunidade e são registradas para que não se percam no tempo, de fato, não sabem dizer quando começou a pesca da tainha em Bombinhas, mas sabem que é uma tradição de antes mesmo de seus avós, passada de geração em geração e que até hoje, apesar dos infortúnios da globalização, é mantida.

O Processo da Pesca da Tainha

A tainha é o nome de vários peixes da família dos mugilídeos, que se distribuem por todo o mundo. Elas vivem próximas dos costões rochosos e recifes, nas praias de areia e nos manguezais, onde se alimentam de grandes quantidades de algas. Elas formam grandes cardumes durante a migração reprodutiva, quando entram nos estuários.

As tainhas em questão (Mugil brasiliensis), partem da Lagoa dos Patos, no estado do Rio Grande do Sul, e vão até o litoral carioca em busca de águas quentes para desovar. Cerca de 70% são capturadas no litoral catarinense.

No período entre abril e julho, esses peixes se tornam o objetivo de vida de muitos pescadores nas praias de Bombinhas. O preparo inicia em abril nos ranchos de pesca quando os pescadores consertam e remendam suas redes, realizam a manutenção das canoas e travam longas conversas, o que demonstra que a amizade é um dos fatores mais importantes da atividade. A partir de maio, tudo pronto, os camaradas ficam a postos a espera do peixe. Algumas funções são pré designadas entre os camaradas, são elas:

  • Patrão: é a pessoa que expressa todo seu conhecimento da pesca. Ele que determina, que ritmiza as remadas, que ordena a velocidade necessária aos remadores. É dele a comunicação que resultará no cerco. Seu lugar é na polpa da canoa.
  • Chumbereiro: sua função é jogar a rede no mar, rapidamente e, ao mesmo tempo. Tem que ser preciso e sincronizar rede e remo, para que o chumbo não enleie na rede e, tão pouco, a rede passe por cima da cortiça.
  • Remeiros: são aqueles (dois, três ou quatro) que com seus braços fortes conduzem as canoas. Atentos aos comandos do patrão, seguem seguros pelo mar para fazerem o cerco. Com atenção no chumbeiro, diminuem a velocidade, se assim solicitado, para que nada possa atrapalhar a função.
  • Vigia: com olhos grudados no mar, conseguem entender cada movimento da água. Quando avistam o cardume dão sinal (com um pano, camiseta, chapéu ou, como usam atualmente, com o rádio transmissor), avisando a chegada da tainha, e a correria começa.
  • Camaradas: são os que ajudam a colocar a canoa na água quando o vigia dá o sinal. Também ajudam na puxada, e após, recolhem a rede e as colocam novamente na canoa.
  • Redeiro: É o camarada que leva a rede ao mar, mas esta função está em desuso e os próprios remeiros é que a executam.
  • Boieiro: É o camarada que pega as boias na água. Trata-se de uma função que, também, está caindo em desuso e foi incorporada pelos remeiros.
  • Cozinheiro: É o responsável por preparar a alimentação de todos os camaradas. Dependendo do rancho tem mais de um. Se o rancho tiver fogão a lenha (praticamente todos possuem), normalmente o cozinheiro é proibido de ajudar no cerco, por ser perigoso, pois o corpo recebe o calor proporcionado pelo fogo e lidar com a água fria pode ocasionar males a saúde. O fato de ser inverno torna a água e o vento, ainda mais, gelados. 
  • Pessoal de praia: São os camaradas que trabalham ajudando a puxar a rede, são chamados de camaradas de praia.

Bombinhas, atualmente, possui 55 canoas a remo, muitas de um pau só literalmente, quase todas utilizadas na pesca artesanal da tainha, algumas são relíquias familiares, como a “Santa Rosa” do rancho Olímpio na praia de Bombas, que como explica o Mestre Zequinha  Olímpio, tem mais de 100 anos e a “Aventureira” do rancho do pescador Naro Pinheiro na Praia da Sepultura, com aproximadamente 300 anos de existência. São 17 portos de pesca distribuídos pela península, que localizam-se nas praias: Bombas, Bombinhas, Sepultura, Retiro dos Padres, Quatro ilhas, Mariscal, Canto Grande, Conceição, Tainha e Morrinhos. É importante destacar que os portos de pesca são demarcados pela Capitania dos Portos, documentados e a maioria absoluta há mais de 100 anos com os troncos familiares. Independente da safra de peixe ser farta ou não, ano a ano, as famílias mantém a tradição de permanecer na praia desde muito antes do sol pensar em nascer, até o entardecer.

Durante o período da pesca, de 15 de maio a 30 de julho, há também a oportunidade dos mais jovens aprenderem o ofício com os mais velhos, possibilitando assim que a tradição seja passada às próximas gerações.

Leis de proteção

A pesca artesanal da tainha é patrimônio imaterial estadual e municipal. A Lei Estadual 15922 de 06 de dezembro de 2012 “declara integrante do patrimônio histórico, artístico e cultural do Estado de Santa Catarina, a Pesca Artesanal da Tainha” e a Lei Municipal 1285 de 04 de julho de 2012 “declara a Pesca da Tainha integrante do patrimônio histórico, artístico e cultural do município de Bombinhas”.

A proteção através de leis, se faz pertinente pelo fato da pesca artesanal da tainha tratar-se de uma característica da identidade cultural de todo o litoral de Santa Catarina, no caso bombinense uma das mais importantes e marcantes da identidade local aliada a outros costumes de extrema relevância na formação da memória, história e no conjunto de caracteres próprios, embora não exclusivos, que formam um povo.

Em Bombinhas a atividade é regulamentada pelo Decreto de Lei Municipal 1320/2013, que “proíbe a prática de esportes náuticos e limita a navegação de embarcações de lazer e industrial de pesca de tainha, como forma de incentivo a pesca artesanal local e autoriza contratação de servidores para fiscalização”.

Nos demais estados brasileiros a pesca da tainha, artesanal ou não, encontra ecos, mas assume as particularidades de cada localidade.

Canoas bordadas e sem bordas

Existem dois tipos de canoas: lisa e bordada. A bordada possui uma borda alta, que se chama borda falsa, ou seja, aumentada com tábuas, serve para a pesca de tainha, anchova e corvina. As canoas bordadas, construídas de um pau só, podem ser de garapuvu, de cedro, madeiras leves, são compridas, bonitas, fortes e resistentes.

As lisas são maciças, tem capacidade para apenas dois ou três homens e é mais usada para a pescaria de tarrafa, de camarão, manjuva ou sardinha, ainda podem ser utilizadas para a pesca de espinhel.


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[1] Mesa redonda intitulada “Construção da Açorianidade em Santa Catarina”, proferida na reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina – Ufsc, em 26 de março de 2015 no evento Colóquio NEA 30 anos de história: Preservando a herança Cultural Açoriana em Santa Catarina
[2] Mestre da Cultura Tradicional de Bombinhas na categoria Pesca Artesanal, intitulado em 14 de novembro de 2014, Seu Naro, Carlos Adrião Pinheiro, em entrevista concedida em julho de 2013.
[3] Seu José Olímpio Olímpio Filho foi reconhecido como Mestre da Cultura Tradicional de Bombinhas, na categoria Pesca, em 14 de novembro de 2014. A afirmação de que a canoa possui mais de 100 anos, todavia sem a documentação comprovatória, foi proferida em entrevistas coletadas entre maio de 2013 a abril de 2015.



Texto: Márcia Cristina Ferreira – jornalista e Marília Dias – licenciada em história, Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas. 


Bibliografia:
ALEXANDRE, Fernando. Dicionário da ilha – Falar & Falares da Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Cobra Coralina Edições, 1994.
CASCAES, Franklin (1908/1983). Vida e Cultura Açoriana em Santa Catarina, entrevista concedida a Raimundo C. Caruso. Santa Catarina: Edições da Cultura Catarinense,1997.
STADEN, Hans. Suas viagens e captiveiro entre os selvagens do Brazil. São Paulo: TYP. Da Casa Eclectica, 1900.