Por mais de um século, Santa Catarina teve os engenhos de farinha como principal atividade econômica. Essa atividade é fruto do conhecimento e domínio de duas influências culturais fortíssimas na região: a indígena, primeira civilização moradora da península; e a açoriana, vinda do Velho Continente a partir de 1748. Da junção desses dois conhecimentos, se originou os Engenhos de Farinha em Santa Catarina, prática que ainda hoje é mantida.

Referências Históricas

Os índios, primeiros habitantes que aqui viviam, já tinham o domínio de plantar a mandioca e fabricar, de um jeito mais rústico, a farinha que, junto com peixes e frutos do mar, eram a base de sua alimentação. Outros pratos típicos dos indígenas feito a partir da mandioca são a tapioca, feita com o polvilho extraído da massa úmida, e o beiju, feito da massa seca e peneirada.
Os colonizadores vindos do arquipélago dos Açores, Portugal, eram basicamente lavradores, acostumados a cultivar o trigo, a cevada e o gado leiteiro. Porém, aqui as terras não eram apropriadas para esse tipo de cultivo. Desta forma, através, da observância com os indígenas adaptaram antigos conhecimentos da sua terra, como o “moinho de vento”, as atafonas e azenhas, à nova prática. E para aumentar a produção criaram galpões e ranchos próprios para a atividade e adaptações nas engrenagens para a utilização primeiramente da força humana, com o passar dos anos tração animal e, recentemente, os engenhos remanescentes são tocados por motores.

A tradição repassada pelos índios de geração á geração e também para os colonizadores de forma transgeracional da transformação da mandioca foi muito mais que um trabalho de subsistência ou moeda de troca. Além da manutenção alimentar é importante destacar as relações sociais propiciadas por esta prática. Famílias inteiras, vizinhos, amigos passavam dias, meses, se revezando nos diversos engenhos na realização de todas as etapas. Namoros, casamentos aconteciam entre as quatro paredes dos engenhos, filhos eram gerados, pois, quase todos moravam nos engenhos durante a safra para facilitar o trabalho, já que iniciavam antes das quatro da amanhã. A valorização do cultivo, o repasse dos saberes da fabricação, as conversas em torno durante o trabalho integram, o que chamamos hoje, de uma ação solidária entre o grupo.
Aqui a farinha era o alimento principal, se comia em toda hora. Farinha com melado, com café. Se pegava o café quente, puro ou com leite, bem quente, e depois se fazia pirão de café, que se chamava loque, uns não adoçavam, e se comia com carne seca assada, peixe seco assado. (CASCAES, FRANKLIN)
O declínio passou a acontecer em 1950. Com a criação das fábricas de grande porte, os pequenos produtores não tiveram vez, aliado a este processo natural, regras da vigilância sanitária também contribuíram para o fechamento de alguns engenhos: muitos produtores não tinham dinheiro para substituir os bois pelos motores elétricos para tracionar a produção; trocar o chão de terra por azulejos também era impossível, sem contar trocar as peças de madeira por inox.

Esse foi um dos motivos na queda da indústria artesanal da farinha em Santa Catarina, mas não só isso, outro problema constante é a falta de interesse pelos descendentes dessas famílias pela atividade. Seguindo seus sonhos e outras formas de renda, os filhos e netos dos farinheiros ou engenheiros (terminologia também utilizada para designar os proprietários de engenhos de farinha de mandioca), colaboraram na queda na produção.

O Processo de Fabricação

A mandioca é uma raiz com alto valor energético, possui sais minerais (cálcio, ferro e fósforo) e vitaminas do Complexo B. O período de plantação varia de região para região, mas aqui em Bombinhas é costume plantar o tubérculo entre os meses de agosto e novembro. Mas, antes de plantar, é preciso lavrar (arar) a terra: usa-se para isso o arado, normalmente puxado por um boi. Depois do plantio, é necessário esperar entre um a dois anos para a colheita, onde a planta já possui várias raízes.

A colheita é feita manualmente e para transportar a mandioca até o engenho usava-se o “carro de bois” puxado por dois animais, mas hoje em dia é mais prático usar uma carroça a cavalo e até mesmo veículos motorizados. Atualmente a península possui quatro carros de boi, e duas juntas de bois: seu Suel Gonzaga de Melo e seu Bielinho (Manoel João da Silva) possuem o carro de boi completo com a junta e seu Pepedro (Pedro Airozo da Natividade) e Lola (Roberto Silvio Dias) somente o carro de boi.

Chegando no engenho, as mandiocas são postas numa área grande no chão, um tipo de eira dentro do galpão, onde várias outras pessoas ficam sentadas em volta “raspando” (descascando) a mandioca. Esse trabalho normalmente é feito por mulheres e crianças da vizinhança que fazem o serviço em troca de farinha. 

Após descascada, a mandioca é lavada no chamado “cocho”, que é feito de um pau só, talhados em canela preta, normalmente, tendo em torno de três metros de comprimento, alguns com mais de 150 anos. Depois de lavadas, elas são trituradas formando uma massa, e esta é posta nos “tipitis” que é uma espécie de cesto feito de casca de bambu, usado para prensagem da massa, e assim são levadas a “prensa” para serem espremidas. Hoje em dia já não são tão usados esses “tipitis” de palha, eles foram substituídos por uma espécie de saco de plástico e barricas, que são recipientes de aduelas articuladas, que comporta maior carga e maior pressão que o uso das cestas. 

Na prensa esses tipitis são postos e prensados pelos fusos, extraindo assim todo seu sumo que pode ser utilizado para fazer polvilho. Esse processo leva em torno de três dias, restando apenas uma massa bem dura que é esfarelada em seguida e peneirada. Essa massa peneirada vai então para o forno, que é feito de barro com bacia de cobre, e ali é torrada. Para se obter a massa do beiju é necessário peneirar mais uma segunda vez.

Curiosidade: Segundo as tradições indígenas, a palavra mandioca é derivada de Mandi = Mani (nome da criança) + oca = aça (semelhante a um chifre). Manioc, na linguagem indígena significa casa de Mani, que segundo a lenda, é uma pequena índia que veio a falecer ainda em tenra idade, em cuja sepultura foi regada diariamente. De acordo com o costume tupy, nasceu então uma planta desconhecida e nomeada de mandioca (PRATA, 1983, p.66). 

Atualmente Bombinhas possui 10 engenhos, no bairro de Bombas: Suel (Tibúrcia) Gonzaga de Melo (em produção), Rosa Geraldina Dias (em produção), Zequinha Simão (engenho fechado) e Família Estevão (engenho fechado); No bairro Sertãozinho: Manoel João da Silva (em produção), Elba  (Azeneu) Nair da Cruz (em produção), Leno e Lenício Mendes (em produção), Valter – Valtinho do cartório (em produção), Ponto de Memória Museu Comunitário Engenho do Sertão (agrega dois engenhos centenários: seu Zé Amândio e Mané Chica);Bairro José Amândio: Engenho da Bilica, do Mim ou das Meninas (doado a FMC em 2015 está em fase de conclusão da parte externa para abertura à comunidade). 

Texto: Márcia cristina Ferreira
Pesquisa: Márcia Cristina Ferreira e Marília Dias.