A bebida licorosa a base de café, cachaça e especiarias como cravo, canela, gengibre e erva doce chamada Consertada, é servida, principalmente, em datas comemorativas. No entanto, é comum vê-la em praticamente todas as casas de famílias tradicionais de Bombinhas. É encontrada em todo o litoral catarinense, em algumas cidades do litoral do Rio Grande do Sul e no litoral norte de São Paulo, a receita modifica-se, conforme a localidade, mas a mistura de café, cachaça e especiarias é mais corriqueira.

O nome origina-se na sobra do café passado, que restava no boião (jarro de barro –  utilitário muito presente na cozinha tradicional bombinense) em cima do fogão a lenha, coado pela manhã, e era “consertado” e transformado em uma bebida que poderia ser guardada em garrafas por meses.

No dia 23 de maio de 2013, a Consertada foi reconhecida oficialmente como bebida típica cultural de Bombinhas, pela Lei Municipal nº 1318. A intenção da Lei é preservar as características da bebida, que é produzida pela comunidade, e incentivar a divulgação  como um atrativo gastronômico de Bombinhas.


Referências Históricas

Fundada em 15 de março de 1992, Bombinhas, atualmente, concentra aproximadamente 20 mil moradores fixos, mas tem um histórico que remete ao ano de 1711. Sua base econômica é o turismo, a pesca e a maricultura, e a população preserva suas histórias e cultiva suas tradições incentivada, valorizada e com a parceria da Fundação Municipal de Cultura. 

A origem da Consertada se perdeu no tempo, é encontrada em várias cidades da região litorânea catarinense. No Arquipélago dos Açores não havia a produção da cultura do café, portanto, os colonizadores o encontrou quando chegaram a estas terras. É possível constatar variações da bebida como consertada somente de aguá sem o café ou de laranja, inclusive em Bombinhas. Os indígenas sempre consumiram bebidas alcoólicas, provavelmente, a adição ao café aconteceu naturalmente e foi disseminada entre os parcos habitantes da época, mas de que forma isto aconteceu, ainda não existem estudos comprovatórios. 

É normal no imaginário dos mais antigos a associação do feitio da consertada e seu cheiro a infância. Era comum ver a mãe, a avó e algumas vezes os homens da família na beira do fogão a lenha fazendo a Consertada, sempre havia garrafas da bebida licorada disponível na cozinha. Com estes relatos concluímos que a bebida é consumida em Bombinhas há pelo menos 200 anos, já que pessoas na casa dos 90 anos se recordam de seus avós e até bisavós preparando a bebida. Tradicionalmente na península, nos festejos de final de ano as famílias recebiam Ternos de Reis e Bois de Mamão em suas casas, e serviam os amigos vários licores, entre eles, a Consertada. 

Os fogões eram a lenha e, mesmo quando a evolução trouxe a todos os lares os fogões a gás, ainda assim era comum possuir o fogão a lenha, esse costume persiste até os dias atuais. O café passado acrescido de especiarias (gengibre, canela, cravo, erva doce, etc.) retorna à panela para ferver. Em seguida acrescenta açúcar a gosto (algumas consertadeiras utilizam somente açúcar mascavo) e mistura com a cachaça.

Não existe uma receita única ou original, ela pode ser preparada de várias maneiras diferentes, cada família tem seu jeito próprio de fazer e repassa, de geração a geração, o segredo. O sabor característico de alguns ingredientes são marcantes e facilmente distinguidos, mas não revelam o tempo de cozimento e a quantidade precisa para garantir o paladar. 

Outra questão importante que merece destaque é a força da oralidade presente no histórico da bebida. As receitas deste e de vários outros quitutes da mesa bombinense, foi repassada através da fala. No início dos temos pela carência de educadores na localidade a comunidade não tinha educação formal e o pouco conhecimento acerca das letras advinha de seus pais. O processo de aprendizado formal iniciou no século XX e, somente, a partir da década de 40, representou o todo bombinense. Mas o conhecimento e memória foi repassado, e continua até os dias atuais, seu caminho natural na comunidade tradicional.

O Processo de feitio

A Consertada é uma bebida ligada às festividades de final de ano, em especial a festa de Terno de Reis, que em Bombinhas segue até o dia de São Sebastião, em 20 de janeiro. O preparo iniciava em outubro para que em dezembro estivesse “envelhecida” para o Natal.

Até a década de 60 plantava-se muito café na região e praticamente toda casa tinha uma roça, o mês de outubro coincide com o período logo após a colheita, que é feita em julho, ou seja, uma época de fartura do café. Por esse motivo, especula-se que possa haver essa ligação entre o cultivo da planta e a bebida caseira.

E da cozinha simples das casas bombinenses, dos fogões a lenha, surge uma bebida refinada, simples e deliciosa que acompanha qualquer prato em coquetéis e entradas de almoços e jantares.

Receita da Consertadeira Mestra Salete Pinheiro  

  • 50 gramas de gengibre 
  • 50 gramas de cravo da índia
  • 50 gramas de canela pau
  • 50 gramas de erva doce
  • 2 litros de cachaça
  • 2 litros de café bem forte sem açúcar
  • 5 xícaras de chá de açúcar

Coloque os temperos e o açúcar para caramelizar, sem deixar escurecer, adicione o café e deixe ferver, em seguida acrescente a cachaça, após levantar fervura esta pronto o licor.

___________________________________________________________________________

Texto Márcia Cristina Ferreira – jornalista e Marília Dias – licenciada em história, Fundação Municipal de Cultura de Bombinhas.