No dia 14 de novembro de 2014 a Câmara de Vereadores de Bombinhas foi cenário de uma solenidade que entra para a história do município, a Intitulação dos Mestres da Cultura Tradicional de Bombinhas. Receberam a deferência 20 personalidades, que detém o saber notório de saberes tradicionais referências na comunidade.

Os nomes foram indicados por instituições culturais locais e atende ao disposto na Lei Nº 1326 de 23 de julho de 2013. A cerimônia relembrou, através de uma encenação, alguns trechos da vida de cada um, enaltecendo suas histórias, vivências e generosidade no repasse de todo este conhecimento.

Emocionados um a um, os Mestres receberam sua intitulação, e alguns fizeram questão de fazer um pronunciamento em nome dos demais, como o Seu Vardinho, o Seu Lindomar e o Seu Atílio Antão que preparou uns versos, especialmente, para a ocasião.
A intitulação tem como objetivo valorizar a cultura da comunidade tradicional e divulgar os saberes e fazeres que deram a Bombinhas sua identidade.

MESTRES DA CULTURA TRADICIONAL DE BOMBINHAS - INTITULAÇÃO 2014

Foto Manuel Caetano



Artesanato


Mestra Elza

Dona Elza Francisca de Lima Rosa, filha de Francisca Tereza de Lima e José Antônio de Lima, aprendeu em berço de família a renda do bilro. Desde a infância dividia tempo entre a agricultura para subsistência e o feitio do bordado que ajudava na renda familiar, e era vendido nas comunidades vizinhas, principalmente em Santa Luzia. “Naquele tempo peixe e banana se dava para os outros de tanto que tinha”. Fala com um prazer sobre o canto dos passarinhos, seus olhos, duas chamas reluzentes, brilham ainda mais quando lembra do canto dos pássaros sempre presente. “Se fosse hoje como naquele tempo o pessoal viveria muito contente por andar no mato”.

Casou-se com Seu Antônio José Rosa, pescador artesanal, agricultor e escultor de canoa de um pau só, nascido no bairro de Zimbros, filho de Jair Sabino Rosa e Maria Ana de Jesus. Da linhagem direta de Dona Elza nenhum herdeiro aprendeu a arte da renda de bilro.

A união entre Dona Elza e Seu Antônio gerou 12 filhos, e sua estirpe somam 32 netos, 29 bisnetos e três trinetos. A Mestra faleceu em cinco de outubro de 2015, às 4h20 aos 81 anos, vítima de pneumonia.

Mestra Lena

Dona Helena Luíza da Silva, ou simplesmente Dona Lena, filha de Dona Luíza Luzia da Silva, conhecida por todos como Dona Luca, e Seu José Florêncio da Silva. O saber da arte de tecer o bordado delicado do crivo aprendeu aos 12 anos com uma vizinha chamada Rosa, que trouxe este conhecimento dos Ganchos. A renda de crivo não é uma tradição de berço bombinense, foi introduzida em meados dos anos 40. Casou-se aos 17 anos, com Raul Felício da Silva e teve somente uma filha: Maria Dolores da Silva. Dona Lena tem três netos e quatro bisnetos. Seus herdeiros nunca se interessaram pelo crivo, mas a senhora enxerga no ensinamento, através de cursos promovidos pela Fundação de Cultura e no fomento desta arte pela educação, por meio das aulas de artes nas unidades escolares, a permanência deste saber no município. “O bordado que mais gosto é o crivo, faço porque gosto muito. Gostaria de deixar o legado, queria que a s pessoas aprendessem. É bonito fazer alguma coisa da tradição da gente, aí não morre né?”

Participou de duas edições do Projeto “Vô Sabe, Vô Ensina” da FMC, em 2013 e 2017, ministrando aulas de renda de crivo.

Cestaria


Mestre Hermínio
Hermínio Damázio Vieira, tem 72 anos, aprendeu a arte de tecer redes e samburás (balaios de cipó) com o pai e este com o pai dele. Filho de Damázio João Vieira e Eufrázia Deolinda Vieira, mora na mesma rua que nasceu, três casas acima. Além do ofício, existe um tempero a mais que é o treino da paciência e a destreza das mãos Uma das etapas mais difíceis é a escolha do cipó que depende de um conhecimento que somente a experiência pode proporcionar. “Não é qualquer um que presta. Tem que trabalhar e não quebrar.” Seu Hermínio se embrenha no mato e volta com braçadas e braçadas do cipó correto. Sabe qual é só de olhar. De seus quatro filhos, três aprenderam a tecer mas nenhum dos 10 netos, até o momento, se interessou em perpetuar a sua arte. Seu hermínio e Dona Biota têm dois bisnetos.
Em 2013 seu Hermínio participou da primeira edição do Projeto “Vô Sabe, Vô Ensina”, no qual ministrou oficinas de cestaria e tarrafas. 

Mestre Guega

Manoel José Martins, o Guega, nasceu na Praia Grande em 25 de setembro de 1928, filho de José Emílio Martins e Maria Leônida Martins. Desde menino trabalhou na roça e na pesca. Aprendeu a tecer balaios com o avô e o pai, e se transformou num exímio artesão de cestarias (samburás e balaios) e, também, pescador artesanal. Ao longo de seus 89 anos foi personagem presente na pesca da tainha, presenciando os grandes lanços, inclusive narrados por ele no documentário “Antes do inverno” de 2013, da Fundação Municipal de Cultura.

Fugiu com dona Araci Maria Vieira em 31 de maio de 1958, jamais oficializaram o matrimônio, tiveram cinco filhos: Conceição, Algemiro Manoel (Bi), Rosângela Martins, Dulcemar Martins e Manoel (Maneca) José Martins Filho. Sua vida inteira tirou seu sustento da venda de balaios e samburás para as embarcações que por aqui chegavam e da agricultura, durante um período de 15 anos em paralelo ao ofício de cestaria, trabalhou na Galé na canoa Amarelinha de propriedade de Veroni e Nilo Pinheiro, e durante seis meses na pesca do camarão em Santos, mas não gostou e retornou. Atualmente, aos 89 anos, ainda se dedica a pesca artesanal da tainha.

Com seu chapéu de palha, companheiro fiel do dia a dia na proteção do sol e da chuva miúda, fez muitos balaios e samburás para os companheiros de praia. Balaios que ainda são encontrados nos ranchos de pesca, pois, o capricho e o cipó colhido na lua certa, preservam o material por longos anos.
Em 2007 Guega feriu os tendões cortando lenha, e não mais conseguiu tecer. Em 2014 dona Araci faleceu, vítima de infarto. Dois anos depois foi a vez do filho caçula partir, vítima de câncer. “Meu filho Bi aprendeu a tece, já o mais moço, o Maneca não. A Araci também fazia, naquele tempo todo mundo fazia balaio”. A estirpe de Guega e dona Araci soma: cinco filhos (um falecido), 13 netos e oito bisnetos. 

Construção Naval


Mestre Doro
Elias Manoel da Silva, popularmente conhecido como seu Doro, é filho de Manoel Paulo da Silva e Felisbina Maria da Silva. Aos 13 anos o pai faleceu e um ano depois sua família se mudou para a localidade onde, ainda, vive nos dias atuais, na Avenida Professor João José da Cruz. Seu Doro herdou as ferramentas e a profissão do pai. Sem nunca ter recebido uma aula sequer na arte da construção, se tornou construtor de embarcações e casas.

Fugiu com Maria Adelaide em 1953, dois anos depois oficializou o matrimônio. Maria era quatro anos mais nova que Doro, o casal teve cinco filhos: Rosevete (que faleceu com seis meses), Eramita (morreu aos 39 anos), Emarita (Preta), Ezarita e o Zelias.

Iniciou o trabalho na construção naval na década de 60, quando seu cunhado, Lauro Silvério da Silva, incentivou para iniciarem juntos a construção de uma baleeira. Seu Doro relembra como se fosse ontem, dizendo que ficou pessimista, já que nunca tinha feito uma embarcação, mas aceitou a empreitada. Foi, também, a convite do cunhado que começou a construir casas de alvenaria, sendo a primeira a de seu Lauro. “Eu fiz a baleeira, ficou forte, boa, o caldeirão todo de peroba. Primeiro passei óleo, depois a tinta. Foi a primeira e acho que foi a melhor de todas. Ficou boa pra viajar, pra trabalhar, pra tudo”.

Homem de fé, participou ativamente na construção da capela de São Sebastião, em seu bairro. Seu Dóro construiu dezenas de casas em toda a península, e mais outras dezenas de embarcações. A estirpe de seu Doro e dona Maria Adelaide soma: cinco filhos, 12 netos e seis bisnetos.


Engenho de Farinha de Mandioca


Mestre Cantalício

Seu Cantalício Calixo da Rocha nasceu em 12 de fevereiro de 1930 em Tijucas, e lá viveu sua infância, mocidade e início da vida adulta. Era o terceiro filho, de um total de sete, do casal Calixto Manoel Rocha e Ana Carolina dos Santos. Cresceu dentro de um engenho de farinha de mandioca e na roça.

Casou-se antes de completar 18 anos com Maria Alzira da Silva. O casal teve 17 filhos, em Itinga nasceram 12 filhos, os outros cinco já nasceram em Bombinhas após 1964, quando aconteceu a mudança. Comprou uma propriedade grande, na atual Rua Abacate no Sertãozinho, e ali colocou seu engenho de farinha de mandioca.

Quando a esposa faleceu em 1994, vendeu suas terras e o engenho para o Valtinho do cartório, mas com direito a usufruto até sua morte. Não permaneceu muito tempo na casa onde achava que passaria o resto de sua vida, pois a solidão falou mais alto e foi morar nas terras de sua filha Áurea e do genro Dé.

De seus 12 filhos que vingaram, pois cinco faleceram ainda pequenos, duas filhas seguiram seus passos na agricultura: Ana e Áurea, a última era que lidava com o pai no dia a dia na roça. Sua herança cultural da agricultura familiar permanece nas duas filhas, e nos netos Leno e Lenício, filhos de Áurea, que também são dois apaixonados pelo engenho de farinha de mandioca.

O Mestre Cantalício constituiu uma família extensa, 17 filhos, sendo que cinco faleceram ou muito pequenos ou recém-nascidos: Doralice (falecida bebê), Isaias (falecido pequeno), Ana, Erenor (falecido em agosto de 2010), Áurea, Maria, Pauli, Valézia, Sadi, Marlene, Luiza (falecida com 1 ano e meio), Gerci, Zeli, Tereza, Valdi (falecida bebê) e Maria (falecida bebê). Sua estirpe soma 39 netos, 47 bisnetos e duas trinetas.

Em 25 de maio de 2016 o Mestre faleceu numa quarta-feira, 25 de junho, aos 86 anos, por volta das 10 horas no hospital Marieta Konder, de infarto.


Mestre Bielinho

Manoel João da Silva, popularmente conhecido como Bielinho, filho de Manoel José da Silva e Maria Joana da Silva. O saber e o manuseio com engenho de farinha de mandioca herdou de seus pais e avós, e tanto seus ancestrais, quanto ele próprio utilizou a atividade em engenhos de farinha para o sustento da família. Desde os oito anos de idade ajudava seus pais na lavoura de mandioca e na farinhada, até trabalhou na pesca mas não se identificou coma função. “Nunca gostei de ser mandado, por isto não gostava da pesca”. Casou-se com Jucelia há 48 anos, e desta união são 8 filhos,16 netos e 3 bisnetos. Homem politizado, sempre foi preocupado com os rumos da cidade, acabou eleito vereador. 




Mestra Rosa

Rosa Geralda nasceu no dia 16 de maio de 1941, em Bombas, filha de Esmelindro Manoel da Silva e Geralda Felisbina da Silva, é a quarta numa linhagem de cinco filhos. Sua família sempre viveu da roça, com 10 anos já subia o morro para ajudar a mãe nas plantações de café, mandioca, feijão, milho, pois, seu pai faleceu em 1951. Além de suprir a casa a produção era vendida nos bairros de Canto Grande, Zimbros e Araçá (na época Bombinhas ainda não era emancipada), e o café, especificamente, vendiam para seu Nenê Fermiano de Porto Belo.

Em 1956, aos 15 anos, casou-se com Roberto Bernardino Dias, viúvo de Maria Bernardina Dias, que já tinha quatro filhos. Em 1960, em decorrência da doença do enteado mais novo, venderam a propriedade na beira da praia e mudaram-se, com engenho e tudo, para as terras onde vivem até os dias atuais, local onde puseram o engenho adquirido em 1949 com o dinheiro da pesca rica. Nestas terras nasceram seus quatro filhos, alguns deles dentro do engenho.

Os amigos e vizinhos ajudavam a fornear, dentre eles as filhas da comadre Bília, mãe do Suel, dona Vina, mãe de Mandoca e da Germira da família do Severo. Ganhavam meia quarta por tarde, que em quatro dias resultava em meio arque, e claro, sempre tiveram àqueles que trabalhavam pela massa pra fazer o beijú. “Ensinei muita menina a raspa direito a mandioca, a fornear. Hoje eu tô aposentada da roça, minha vida foi sempre da roça, meu pai botava roça e sobrava aquele beirado, eu dizia assim: ‘pai deixa eu botar uma roça ali pra mim’, ele brigava comigo, mais eu ia lá capinava, e ele dizia ‘deixa a rama que eu corto’ e eu por perto pedindo pra ele me ensinar. Ele dizia: ‘olha Rosa é assim o brotinho é pra cá, onde tem o zolinho, aqui vai brotar, então, tu bota assim’. Ele me ensinou e eu ensinei pra quem quis aprender, meu filho, as raparigas”.

Dona Rosa tem sua história narrada em dois livros bombinenses: “A eira, a roda e o tempo: um retrato de Bombinhas a partir do olhar de seus moradores”, de Márcia Cristina Ferreira e “Histórias de Pescadores: causos das crianças de antigamente” de sua neta Marília Dias e Jamila Delavy, ambos publicados em 2016. A estirpe de dona Rosa soma quatro filhos: Manoel, Rosimere, Ana Cristina e Leandra, quatro enteados (dois já falecidos): Roberto (Lola), Maria Nice, Vilmar e Camilo, seis netos e dois bisnetos.


Mestre Suel

Suel Gonzaga de Melo nasceu em 23 de abril de 1938, filho de Gonzaga Luiz de Melo e Maria José de Melo. Iniciou aos oito anos a labuta no engenho da avó dona Bilica, que ficava na altura onde hoje é o Banco Itaú, no lado de cima. Aos 15 iniciou a vida na pesca industrial e largou a lida na roça e engenhos, mas quando estava de férias costumava ajudar a esposa dona Tibúrcia, que sempre trabalhou na roça e no engenho do sogro, seu Mané Chica. Iniciou o namoro com dona Tibúrcia em uma domingueira no bairro de Zimbros, a fuga aconteceu em 20 de janeiro de 1964, e em agosto do ano seguinte casou-se na igreja e no cartório. Em novembro de 1964 nasceu o primeiro filho do casal, o Almir, em seguida vieram: Alzir, Aldir e Maria José.

Quando se aposentou em 1984 retomou sua antiga paixão pelo engenho. Primeiramente trabalhou de ameia com o amigo Zequinha do Amaro, mas não se deu com o genro do amigo e resolveu adquirir seu próprio engenho. Eu acho que os engenhos de farinha daqui de Bombas vão se acabar, o motivo é a lenha, porque o Ibama não deixa cortar a lenha mais, aí não tem condição de tocar né?” A estirpe de seu Suel e dona Tibúrcia soma: quatro filhos e nove netos. 


Folclore de Boi de Mamão


Mestre Sena

Manoel Frordoardo de Sena Filho nasceu no Canto Grande no lado do Mar de fora, numa casa simples de madeira no caminho para a Praia da Conceição, assim como seus sete irmãos, no dia 12 de fevereiro de 1971, filho de Manoel Frordoardo de Sena e Nomélia Maria dos Santos Silva.

Seu pai era um exímio tirador de verso e o saber em sua família é repassado de geração em geração, seus avós ensinaram seu pai, e com o genitor Sena aprendeu a arte. Já com idade avançada seu pai não cantava pela fragilidade da saúde, porém, orientava o pequeno Sena. A fama de seu Neca do Lalado, apelido de seu Manoel, precede sua ausência, os mais antigos na comunidade contam que era um excelente tirador de verso.

Com 14 anos, numa brincadeira, Sena descobriu ter herdado o dom de seus antepassados. Visto que o boi de mamão na comunidade tinha feito uma pausa, desde que seu pai havia parado com o folguedo ha mais de 15 anos, juntou alguns amigos, formou um grupo. Sena conta que Neca do Lalado dizia, que tirar verso é no improviso, simplesmente acontece na hora e depois não conseguia lembrar de absolutamente nada. Com o Mestre Sena, hoje homem com 46 anos, acontece da mesma forma, chega na casa da pessoa e não precisa nem conhecer, basta saber o nome, e os versos simplesmente acontecem: “vem de dentro no calor do momento junto com os bichos e com o companheiro tambor”.

Em 1994 casa-se com Roselita Alves de Sena e têm duas filhas Natana e Gabriela, o casal tem um netinho: Guilherme de Sena Rocha. 

Mestre Pepedro

Pedro Airozo da Natividade nasceu em 22 de fevereiro de 1945 no bairro de Zimbros, filho de Agustinho Nestor Airozo e Lúcia Antônia da Natividade, tem seis irmãos, todos cantadores de Reis e de Boi de Pau.

Assim que pôde andar por conta própria sem o apoio da mãe, já acompanhava o pai nas andanças. Pepedro lembra da primeira vez que tirou verso, tinha uns seis ou sete anos e foi com seu pai numa casa na praia de Bombinhas, hoje bairro Centro, e ali diante dos velhos Dinizarte e Mané Guimara na casa do nortista Russo, o menino fez sua estreia na arte. “Tirar verso de improviso é de família, é nosso destino, eu, meu pai, meus irmãos e irmãs, todos nós sempre cantamos Terno de Reis e Boi de Mamão”.

Iniciou o namoro com a jovem Marisinha, dona Maria Lindomar da Natividade, do Canto Grande numa domingueira na costeira do Zimbros, duas semanas depois fugiram, em 5 de junho de 1965. Moram até hoje na casa de nascimento de Pepedro.
Pepedro é um dos grandes mestres de boi da cidade, mesmo antes da intitulação era considerado um grande conhecedor da tradição, tanto pela comunidade, quanto por agentes culturais. Tem uma memória invejável, jamais escreveu uma única linha de suas composições, pois apenas escreve seu nome.

O casal tem cinco filhos Vera Lúcia, Valdemir (Mico), Veroni, Vailton e Vânia Maria, nove netos e dois bisnetos., e os netos seguem os passos do avô tanto na herança do Lereu, quanto do Terno de Reis e Boi de Mamão.  




Folclore de Terno de Reis



Mestre Lindomar

Seu Lindomar Emanuel de Sant`Ana é filho de Emanuel Miguel de Sant`Ana e Ana Geraldina de Sant`Ana, fomentadores de terno de reis, embora, não fossem cantadores. Logo após o casamento com Alice para com a cantoria em respeito a religião da esposa. No ano de emancipação de Bombinhas criam o grupo Estrela do Oriente do Morrinhos. Atualmente o grupo é um terno familiar com três gerações das famílias Sant`Ana e Silva juntos. Seu Lindomar tem o sonho que essa tradição perdure e que as próximas gerações de sua família, continuem a manutenção desse patrimônio. “Enquanto estiver vivo e com saúde vou continuar passando na casa dos amigos com o Terno de Reis”.

Seu Lindomar é tirador de verso de improviso, no momento da cantoria vem a inspiração. Em 2017 lançou, juntamente ao grupo, um DVD com um mine documentário acerca da história do grupo e 10 canções, cinco consagradas e cinco autorais, realizado com patrocínio do Fundo Municipal de Cultura de Bombinhas de 2015, e apoio cultural da inciativa privada. O casal tem seis filhos e oito netos.

Gastronomia e Agricultura Familiar


Mestra Ana
Ana Calixto Rocha da Silva, é a segunda filha, da linhagem de 17, de Cantalício Calixto Rocha e Maria Alzira da Silva, e veio morar em Bombinhas aos 14 anos quando toda a família se mudou para cá, vinda de Itinga na cidade de Tijucas. Cresceu na labuta com seus pais e 16 irmãos no cultivo da roça, atualmente chamada de agricultura familiar. É conhecida por Ana do Bá ou Ana do Seu Cantalício. O Bá (Seu Valdemar Bento da Silva) é seu esposo há 39 anos. Tem uma produção de colorau famosa na península, vendida até para São Sebastião em São Paulo. É uma Consertadeira de mão cheia, é dela a Consertada servida no Museu Comunitário Engenho do Sertão. A produção de dona Ana é totalmente sem agrotóxicos. “Não uso nada de veneno, meu colorau é puro, faço com óleo ou com banha, o que tiver, mas é tudo purinho”.
Da união de Dona Ana e Seu Bá, nasceram cinco filhos e o casal tem seis netos. Nenhum dos filhos segue os passos dos pais na agricultura familiar. 

Mestra Dulce

Dulce Maria (Pinheiro) da Silva nasceu no dia 16 de outubro de 1931, pelas mãos da parteira Tibéria, na Praia Grande, atual bairro de Bombas, filha da benzedeira Maria Rita Flor e José Laurentino Pinheiro, que além de dona Dulce tiveram mais cinco filhos. Na infância permaneceu por três anos seguidos na primeira série do antigo primário, não porquê fosse reprovada, mas, por não haver mais séries. Por estar à frente dos estudos ajudava a professora a ensinar outras crianças. Aos 12 anos fez sua primeira viagem de “lancha” para a casa de sua madrinha em Ilhota, devido ao mau tempo o leme da lancha se partiu e tiveram que fazer uma parada em Balneário Camboriú, no dia seguinte seguiram até Ilhota. Ali dona Dulce permaneceu por dois meses e a empregada de sua madrinha, a dona Flor repassou a enteada seus saberes de benzimentos, que ela anotava num caderninho: zipra, quebrante, zipelão, insolação, mal olhado, dor de dente, cobreiro, dor nos olhos, campainha caída, bicheira, vermes, rasgado, entre outros. E aprendeu o mais importante: a força da fé. Somados aos ensinamentos com dona Flor tinha o fato de ter visto em toda a sua infância a mãe exercendo essa função, e, somente em observar, aprendeu.

Aos 17 anos casa-se com José Amândio da Silva Júnior e tem 16 filhos, todos nascidos em casa. Dona Dulce trabalhou muito no cultivo da agricultura familiar, de subsistência, nos engenhos de farinha de mandioca e cachaça da família, e criou seus filhos todos na roça. Além de sábia benzedeira e agricultora, dona Dulce é uma hábil versadora, tanto no Pão-por-Deus, quanto nas cantorias de Terno de Reis e Boi de Mamão.

Em 1988 devido a um desentendimento quanto a moradia separou-se de seu Zé Amândio pela quarta e definitiva vez, sem nunca mais trocar conversa com o esposo, mas sempre se consideraram cônjuges, inclusive sentando-se lado a lado nas festas familiares. Seu Zé Amândio faleceu em 31 de janeiro de 2014. A estirpe de dona Dulce e seu Zé Amândio soma: 16 filhos, 36 netos, 28 bisnetos e uma trineta.

Mestra Salete

Salete Maria Pinheiro Pereira, nasceu na Praia Grande no dia 1º de julho de 1946, é a terceira filha de Manoel Laurentino Pinheiro e Maria Margarida da Costa Pinheiro, que ainda tinham mais sete filhos: Selma Maria (falecida), Salma Maria, Sílvia Maria (falecida), Suraia Maria (morreu com um ano), Silvio Manoel (seu Zico), Suel Manoel e Manoel Filho. 

Ainda menina aprendeu com a avó Amália a arte da culinária: bolachas, broas, a Consertada e pratos típicos com galinha, porco, peixes e frutos do mar, além do famoso aparadinho (café tomado direto na xícara em que será ingerido), sempre oferecido em sua aconchegante cozinha. Além da gastronomia tradicional, ela gosta de criar pratos e não há frutinho do mato, desconhecidos pela maioria, que ela não transforma em geleias e sorvetes. Salete é uma grande repassadora do conhecimento, mesmo as receitas consideradas de família, ela não se acanha em transmitir.

Em 1973 casou-se com Ruben Amaro Pereira, neste mesmo ano nasceu a única filha Janaína Pereira, que também lhe deu sua única neta Marina. Em 1982 separou-se e nunca mais quis saber de matrimônio. Em 2007 inicia sua trajetória junto ao grupo Mixtura, a princípio acompanhando a neta Marina, com o tempo tornou-se integrante e é dela a Consertada que o grupo serve em suas apresentações. Nos últimos anos estava na tocata, da qual fez uma pausa em 2016 para o tratamento de câncer, que desbancou com a mesma garra de toda a sua vida, e aos poucos retoma suas atividades junto ao grupo.

Outra habilidade da senhora de 71 anos é a oralidade, é uma grande contadora de histórias e dona de uma memória invejável, e por isso mesmo, tem suas narrativas em diversas teses de conclusão de curso, quer sejam graduação, mestrado ou doutorado, e Salete também tem sua história de vida contada nos dois livros bombinenses: “A eira, a roda e o tempo: um retrato de Bombinhas a partir do olhar de seus moradores”, de Márcia Cristina Ferreira e “Histórias de Pescadores: causos das crianças de antigamente” de Jamila Delavy e Marília Dias, ambos publicados em 2016.

Participou de duas edições do Projeto “Vô Sabe, Vô Ensina” da FMC, em 2013 e em 2017, ministrando cursos de gastronomia típica.


Em 31 de outubro de 2017 recebeu na cidade de Palhoça, do Núcleo de Estudos Açorianos – Nea da Ufsc, o Troféu Ilha do Pico, que premia a categoria Mestre do Saber e Fazer.

Literatura


Mestre Atílio Antão

Atílio Francisco Antão nasceu em 17 de agosto de 1930, filho de Francisco Antônio Fagundes dos Santos e Ana Alexandrina da Conceição, sua mãe faleceu em 1937, quando seu Atílio contava sete anos, e seu Francisco casou-se com dona Margarida Maria de Jesus. Tem mais três irmãos: Hercílio filho de dona Ana Alexandrina e Maria Margarida e Catarina Margarida, filhas de dona Margarida.

Herdou dos avôs a veia artística, tanto de seu Emerenciano José Jacinto, quanto seu Antão Fagundes dos Santos, eram homens letrados. Seu Atilio além de versador, poeta, rimador, foi professor por três anos e meio na antiga escolinha do bairro, quando ainda era de madeira, roçador, ajudante de topógrafo e trabalhou por 18 anos como picadero. Também conservava em seu terreno um pequeno cultivo de hortaliças, temperos, mandioca, batata-doce para consumo familiar.

Foi casado com dona Ana Maria de Souza por 55 anos, com a qual teve 10 filhos: Iolanda, Nivalda, Atílio e as gêmeas Iraci e Irani, estes cinco morreram bebês, e mais cinco que vingaram, Almeri (Mirinha) Eli, José Eugênio (falecido), Itamar Zenir, Inézia e Erinézio Atílio Antão. E antes de se tornarem evangélicos saíram muito com a cantoria do Terno de Reis. Dona Ana faleceu em 2007 e seu Atílio casou-se com dona Francisca da Silva Foppa, a dona Chica, com a qual viveu por 10 anos, até a morte dela em 2016.

Desacostumado a solidão, encontrou um novo amor e estava de casamento marcado com dona Tereza, quando em 28 de fevereiro de 2017 lançou seu livro “Causos de Atílio Antão”, organizado pela Associação Cultural Zé Amândio e Instituto BoiMamão, realizado por meio do Fundo de Cultura de 2015. Uma semana depois foi internado por sete dias, retornou por dois dias e foi novamente internado. Foi acometido por um Acidente Vascular Cerebral – AVC, na quinta-feira 23 de março e não mais acordou. Faleceu no domingo, dia 26, entre 19h30 e 19h45, seu Atílio Antão formou uma família numerosa, são 10 filhos, 20 netos, 33 bisnetos e um trineto.

Em 26 de agosto de 2017 foi homenageado pela Academia de Letras do Brasil Santa Catarina, seccional de Bombinhas, a qual em solenidade de criação, nomeou a confraria de Mestre Atílio Antão.

Pesca


Mestre Naro

Carlos Adrião Pinheiro, filho de Adrião Antônio Pinheiro e Catarina Paulina de Jesus, nasceu na Lagoinha em 4 de dezembro de 1925, as duas da tarde em casa paterna, pelas mãos da parteira dona Zefa Pinheiro, sua avó, mas foi registrado oficialmente em 4 de janeiro de 1926.

Aos 11 anos iniciou a lida na pesca artesanal com seu pai, sempre pescou com direito a um quinhão inteiro. Também aos 11 anos, adquiriu sua primeira canoa de um pau só, comprada em Tijucas e vendida em 1956. “Comprei com o dinheiro do meu trabalho, o dinheiro que juntava não tinha onde gastar mesmo, então a gente guardava”. Começou na pesca industrial em 1954 no barco do irmão Pinguim. Nunca alterou sua carteira de pescador nas funções a bordo, passou direto para proprietário em 1972.

Começou a namorar a jovem Lira, Maria Ídia (Mafra) Pinheiro em maio de 1949, em 18 de janeiro de 1950 oficializa o matrimônio. O casal tem sete filhos: Clemildes (Quidinha), Cleria, Claudete, Cleusa, Claudir (Cadi), Claudeci, Claudionor (Canô). Seus dois filhos homens trabalham na pesca artesanal da tainha pelo fator da tradição e assim conseguem manter. De seus 20 netos, somente no ano de 2016 é que dois deles se interessaram na continuidade: Carlinhos e Leandro. “Meus netos se dedicam a outras profissões, acredito que o Carlinho até vai continuar, ele tem gosto pela tradição, o Leo também, mas é muito ocupado trabalha muito nesse negócio de internet, informática”.

Seu Naro possui sete canoas de um pau só. A “Aventureira”, canoa de aproximadamente 250 anos de canela guarapuvu, herdou de seu Adrião, que faleceu 1964. As demais são: Pequena, Tetei, Tati, Netinha, Prosinha e Ídia. Seu Naro e dona Lira têm 20 netos e 22 bisnetos.

Mestre Zequinha

José Olímpio Filho, nasceu em sete de março de 1950, o terceiro filho de dona Maria Ernestina de Melo e José Olímpia da Silva, criado junto aos 10 irmãos na labuta diária da roça e na pesca. Com 18 anos iniciou na pesca industrial, na qual trabalhou por 30 anos. 

Herdou junto aos irmãos o gosto pela pesca artesanal da tainha e duas canoas centenárias: a Santa Cecília e Santa Rosa. Nomes dados por seu Zé Olipa em homenagem as filhas. Também herdou junto aos irmãos o rancho de pesca onde juntos, guardam os apetrechos da atividade, inclusive alguns objetos considerados relíquias. Ao longo de sua trajetória adquiriu mais quatro canoas de um pau só, a primeira delas, a Janaína, o negócio foi realizado por seu pai que o avisou pelo rádio sobre a venda, pois estava embarcado, as demais são: Faísca, Padroeira e Maria José.

Em 1975, aos 25 anos, fugiu com a jovem Bia, Maria Antônia Olímpio, de apenas 14 anos. Um ano e cinco meses depois oficializaram o matrimônio.

Em outubro de 1975 nasceu o primeiro filho, o Denilson (Wil) e dois anos depois, em 77 nasceu a filha Denise. Ainda em 1977 abriu o bar na beira da praia, um ano depois o bar se tornou restaurante. Na década de 80 resolveu iniciar na vida pública, foi eleito vereador para a legislatura de 1989 a 1992, na administração de Maurino Serpa. A estirpe de Zequinha e Bia Olímpio soma: dois filhos e quatro netos.

Mestre Vardinho

Osvaldo Reinaldo de Melo, filho de Reinaldo Luiz de Melo e Maria Bernardina (da Silva) de Melo, nasceu e foi criado na praia do Embrulho, junto a mais seis irmãos. Iniciou na atividade profissional da pesca em 1949, aos 16 anos, na embarcação do mestre João Dias, em Santos, mas desde menino trabalhou junto ao pai e os camaradas na pesca artesanal. Foi aos 10 anos que, em parceria com o amigo Gualberto, iniciou na pesca artesanal da tainha, no rancho de seu pai, recebiam 2x1, os dois valiam um quinhão.

O Rancho na praia do Retiro dos Padres, sempre esteve nas mãos de sua família, explica que o avô Luiz contava ao seu pai Reinaldo, que o bisavô de seu Vardinho, seu Tomé Cruz, já possuía o rancho. É proprietário de duas canoas de um pau só: Artista e Luz do Dia. O Rancho em parceria com o amigo Vavá ainda abriga mais duas canoas, uma do amigo Vavá e uma de sociedade de seu filho Edvaldo com o filho do Vavá, o Diego.

Foi o primeiro pescador da praia de Bombinhas a trabalhar na pesca do camarão. Seu Vardinho fugiu em 15 de janeiro de 1955 com a filha mais velha de dona Inzinha, a Zulma Rita da Mata. Em 4 de fevereiro casou-se no religioso, e ainda no mesmo ano, oficializou no civil, no dia 12 de abril. Em 4 de julho de 2017 falece, vítima de embolia pulmonar, aos 84 anos. Seu Vardinho e dona Zulma têm oito filhos: Ericleia (Queia), Edinho, Edvaldo, Eliane, Erico, Maria Zulma, Elisa e um falecido, 19 netos, nove bisnetos e oito trinetos.


Mestre Vital

Vital Januário Miguel nasceu em 11 de junho de 1933, filho de Francisco Januário Miguel, o Chico Januário, e Carolina Flávia Miguel, a dona Carola. É o primogênito de 13 filhos. Foi criado na labuta da roça e na pesca, já menino pescava na Praia de Fora, no porto de seu Vidinha e do Pai Nilo, junto ao irmão Torninho no 2X1, os dois valiam um quinhão. E quando ganhou a maioridade, também ganhou o mundo do mar e tornou-se pescador profissional, o destino foram os portos do Rio Grande do Sul, onde trabalhou por três anos.

Vivenciou os afazeres no engenho, pois, em frente a sua morada de hoje, na rua Surubim, era o local onde ficava o engenho da família. E nesse mesmo engenho trabalhou até quando o patriarca se desfez das terras. Na noite de 10 de março de 1957 fugiu com a Maria Alcides Mafra. Se encontraram em dezembro de 1956 num dos bailes típicos da época. Três meses depois fugiram. Há uma curiosidade quanto a oficialização do casamento de seu Vital e dona Bia, pois, foi o primeiro realizado no cartório do Nomi.

Tiveram sete filhos, quatro homens e três mulheres: o primogênito, Manoel, nasceu morto, Valdemir (Vardo), Marilda, Valdenir (Miza), Valcedir (Valsa),Maurília (Preta), Valdinei e Juliana, a sobrinha adotada aos sete meses. Os filhos homens seguiram os passos do pai e tornaram-se pescadores, passo também de alguns netos. Quando a mãe de dona Bia faleceu em 1969, coube a ela assumir a criação dos irmãos, dois deles ainda muito pequenos, e a seu Vital assumir a paternidade, desta forma criaram: Eduardo, Abdon, Ailton, Ariadenes (Denes) e Arno.

Na década de 70 comprou uma faixa de terra na beira da Praia de Fora, onde hoje é seu porto e rancho, que pertencia a seu Tarcílio, foi dona Idalina que ao enviuvar vendeu o porto com canoa e rede ao amigo Vital. Em 1980 aposentou-se. “Hoje em dia quem me acompanha na pesca é meu filho, meu neto e às vezes meu bisneto, também, nos acompanha para botar rede”.


Texto, pesquisa e fotos: Marcinha - Márcia Cristina Ferreira
jornalista e escritora